quinta-feira, 24 de julho de 2014

Cuba só é boa para quem nunca foi lá - por Domingos Pellegrini

            Eu conheci pessoalmente o escritor e poeta Domingos Pellegrini, o londrinense que ganhou 6 prêmios literários Jabuti. E recentemente eu tenho conversado por e-mail com ele. Vendo que eu estava interessado pelas críticas ao socialismo ele me passou alguns textos dele sobre o assunto. Então eu vou publicar aqui no meu blogue alguns, os quais ele deu permissão para.                                                        

          "Parecem cínicas as respostas da professora cubana à entrevista no Notícia, justificando a ditadura lá e sofismando que “existe  pobreza em Cuba, mas é uma pobreza com proteção e garantias do Estado”... Risível. E lá não se pode falar de diferenças de classe porque “isso seria falar de mecanismos de desigualdade”... Ora, além da resposta ser cinicamente óbvia, a verdade é que lá não se pode falar disso porque há uma ditadura, com dedos-duros infiltrados por todo canto, tanto que, se você pergunta a um cubano o que acha do governo, ele primeiro olha em redor, depois diz que “não gosta” de falar de política...
          Quando a cubana diz que “a ilha tem muitos avanços em matéria social, mas também tem contradições internas que deve resolver”, está certa só na segunda parte, e a principal contradição é acabar com a ditadura se quiser desenvolvimento. Estivemos uma quinzena lá e só vimos duas casas em construção. Os carros sucateados são do povo, carros novos são dos governantes ou da elite de aparentados, que podem abrir pequenos negócios familiares, ou são de pessoas ainda com iniciativa após décadas de uma cultura de tutelagem.
          Um hotel tinha péssimos e outro tinha ótimos serviços, embora os dois gerentes fossem indicados pelo Partido. Um tinha iniciativa e brio, o outro não. Num regime de concorrência, um estaria quebrado, mas lá estão os dois.
          No nosso pacote turístico para mergulhos, não constavam almoços. Mas, no barco, a tripulação ofereceu almoço a ser pago “por fora” (o que daria em poucos dias mais do que ganhavam oficialmente por mês). Nos serviram lagostas colhidas numa área de proteção ecológica. Questionados, disseram que “aqui no alto mar ninguém está vendo”... Além de pobreza, o regime  dissemina corrupção.  
          No saguão do hotel, moças ficavam sentadas, “lendo” ou tomando café... à espera de fregueses. Há mais lojas de roupas usadas que  de  roupas novas. Na principal sorveteria de Havana, havia apenas um sabor de sorvete, sem fila para os turistas e imensa fila para os cubanos. A pobreza é quase geral, mansamente entristecida por um regime que mantém centenas de presos políticos (ninguém sabe quantos, se nem julgados foram) e promove eleições de deputados com candidatos escolhidos pelo partido em número igual ao número das vagas... Mas a hipocrisia maior de Cuba é fingir que a pobreza não existe ou, se existe, é feliz, enquanto é apenas conformada. Diz a cubana que “Cuba admite a emigração para outras partes do mundo”, mas esqueceu de dizer que isso é temporário e a família fica de refém. Se alguém consegue viajar sem restrições ou vigilância, ou é do Partido ou aparentado (o que pode ser o caso da professora).
          É revoltante sua afirmação de que leva daqui “a experiência dos movimentos contra-hegemônicos, que estão em luta ideológica constante contra o capitalismo brutal que está implantado neste país”. Mas aqui não há presos políticos nem censura à imprensa (ainda, apesar dos esforços do governo petista nesse sentido). Brutal é o regime cubano, que não admite qualquer oposição. Mas os ingênuos que nunca foram lá continuam acreditando, e os porta-vozes cubanos continuam apregoando que há um bom sistema de saúde e de educação, com isso “embrulhando”  bonito o que é feio e precário. Um companheiro nosso de viagem precisou de um curativo, a enfermeira oficial do hotel disse que não tinha nem gaze e esparadrapo, lavou o ferimento com água e sabão, polvilhou com sulfa e disse que esse é o padrão. Mas os cartazes “revolucionários” não faltam por toda parte, enaltecendo uma guerrilha heróica e seus heróis de meio século atrás... A “revolução” é uma grande fantasia vendida ao povo, que finge acreditar, enquanto o regime finge que funciona. Só a repressão é plenamente competente em Cuba.
           Mas a professora Vera Suguihiro, comentando a entrevista, diz que  “temos uma falsa democracia” e “nossa cultura política é praticamente nula”. Ela não deve ter visto nosso melhoramento eleitoral a cada eleição, as urnas eletrônicas, a lei (de iniciativa popular) da ficha-limpa, a transparência crescente, os movimentos cívicos, os conselhos sociais, a responsabilidade social e ambiental das empresas. Aliás, se ler Após o Liberalismo, de Immanuel Wallerstein, verá que com o Muro de Berlim caíram não só o socialismo autoritário mas também o capitalismo selvagem. Cada vez mais se vê que só tem futuro as empresas que não visem apenas o lucro, mas o bem estar de seu público e seu pessoal.
          A professora diz que irá a Cuba a convite da colega cubana. Se  então só enxergar o que o regime quiser mostrar, se não falar realmente com o povo, entendendo que só falam depois de confiar, poderá voltar achando que Cuba é feliz apesar de pobre (pois, para os turistas, os cubanos cantam  alegres para ganhar gorjetas). Cuba é boa só para quem nunca foi lá ou foi como convidado do governo.

          Espero que isto seja publicado na íntegra, em respeito aos democratas que pagam a pesada carga tributária brasileira, inclusive para manter universidades públicas onde a ramela esquerdista ainda impede  visão clara. Ou publiquem para demonstrar que aqui não é Cuba."
Domingos Pellegrini 

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