Eu conheci pessoalmente o escritor e poeta Domingos Pellegrini, o londrinense que ganhou 6 prêmios literários Jabuti. E recentemente eu tenho conversado por e-mail com ele. Vendo que eu estava interessado pelas críticas ao socialismo ele me passou alguns textos dele sobre o assunto. Então eu vou publicar aqui no meu blogue alguns, os quais ele deu permissão para.
"Parecem
cínicas as respostas da professora cubana à entrevista no Notícia, justificando
a ditadura lá e sofismando que “existe
pobreza em Cuba, mas é uma pobreza com proteção e garantias do
Estado”... Risível. E lá não se pode falar de diferenças de classe porque “isso
seria falar de mecanismos de desigualdade”... Ora, além da resposta ser
cinicamente óbvia, a verdade é que lá não se pode falar disso porque há uma
ditadura, com dedos-duros infiltrados por todo canto, tanto que, se você
pergunta a um cubano o que acha do governo, ele primeiro olha em redor, depois
diz que “não gosta” de falar de política...
Quando
a cubana diz que “a ilha tem muitos avanços em matéria social, mas também tem
contradições internas que deve resolver”, está certa só na segunda parte, e a
principal contradição é acabar com a ditadura se quiser desenvolvimento.
Estivemos uma quinzena lá e só vimos duas casas em construção. Os carros
sucateados são do povo, carros novos são dos governantes ou da elite de
aparentados, que podem abrir pequenos negócios familiares, ou são de pessoas
ainda com iniciativa após décadas de uma cultura de tutelagem.
Um
hotel tinha péssimos e outro tinha ótimos serviços, embora os dois gerentes
fossem indicados pelo Partido. Um tinha iniciativa e brio, o outro não. Num
regime de concorrência, um estaria quebrado, mas lá estão os dois.
No
nosso pacote turístico para mergulhos, não constavam almoços. Mas, no barco, a
tripulação ofereceu almoço a ser pago “por fora” (o que daria em poucos dias
mais do que ganhavam oficialmente por mês). Nos serviram lagostas colhidas numa
área de proteção ecológica. Questionados, disseram que “aqui no alto mar
ninguém está vendo”... Além de pobreza, o regime dissemina corrupção.
No
saguão do hotel, moças ficavam sentadas, “lendo” ou tomando café... à espera de
fregueses. Há mais lojas de roupas usadas que
de roupas novas. Na principal
sorveteria de Havana, havia apenas um sabor de sorvete, sem fila para os
turistas e imensa fila para os cubanos. A pobreza é quase geral, mansamente
entristecida por um regime que mantém centenas de presos políticos (ninguém
sabe quantos, se nem julgados foram) e promove eleições de deputados com
candidatos escolhidos pelo partido em número igual ao número das vagas... Mas a
hipocrisia maior de Cuba é fingir que a pobreza não existe ou, se existe, é
feliz, enquanto é apenas conformada. Diz a cubana que “Cuba admite a emigração
para outras partes do mundo”, mas esqueceu de dizer que isso é temporário e a
família fica de refém. Se alguém consegue viajar sem restrições ou vigilância,
ou é do Partido ou aparentado (o que pode ser o caso da professora).
É
revoltante sua afirmação de que leva daqui “a experiência dos movimentos
contra-hegemônicos, que estão em luta ideológica constante contra o capitalismo
brutal que está implantado neste país”. Mas aqui não há presos políticos nem
censura à imprensa (ainda, apesar dos esforços do governo petista nesse
sentido). Brutal é o regime cubano, que não admite qualquer oposição. Mas os
ingênuos que nunca foram lá continuam acreditando, e os porta-vozes cubanos
continuam apregoando que há um bom sistema de saúde e de educação, com isso
“embrulhando” bonito o que é feio e
precário. Um companheiro nosso de viagem precisou de um curativo, a enfermeira
oficial do hotel disse que não tinha nem gaze e esparadrapo, lavou o ferimento
com água e sabão, polvilhou com sulfa e disse que esse é o padrão. Mas os cartazes
“revolucionários” não faltam por toda parte, enaltecendo uma guerrilha heróica
e seus heróis de meio século atrás... A “revolução” é uma grande fantasia
vendida ao povo, que finge acreditar, enquanto o regime finge que funciona. Só
a repressão é plenamente competente em Cuba.
Mas a professora Vera Suguihiro, comentando a
entrevista, diz que “temos uma falsa
democracia” e “nossa cultura política é praticamente nula”. Ela não deve ter
visto nosso melhoramento eleitoral a cada eleição, as urnas eletrônicas, a lei
(de iniciativa popular) da ficha-limpa, a transparência crescente, os
movimentos cívicos, os conselhos sociais, a responsabilidade social e ambiental
das empresas. Aliás, se ler Após o
Liberalismo, de Immanuel Wallerstein, verá que com o Muro de Berlim caíram
não só o socialismo autoritário mas também o capitalismo selvagem. Cada vez
mais se vê que só tem futuro as empresas que não visem apenas o lucro, mas o
bem estar de seu público e seu pessoal.
A
professora diz que irá a Cuba a convite da colega cubana. Se então só enxergar o que o regime quiser
mostrar, se não falar realmente com o povo, entendendo que só falam depois de
confiar, poderá voltar achando que Cuba é feliz apesar de pobre (pois, para os
turistas, os cubanos cantam alegres para
ganhar gorjetas). Cuba é boa só para quem nunca foi lá ou foi como convidado do
governo.
Espero
que isto seja publicado na íntegra, em respeito aos democratas que pagam a
pesada carga tributária brasileira, inclusive para manter universidades
públicas onde a ramela esquerdista ainda impede
visão clara. Ou publiquem para demonstrar que aqui não é Cuba."
Domingos Pellegrini
Nenhum comentário:
Postar um comentário